Como é feito o trabalho de revisão técnica de projetos estruturais?

 

O desabamento de um trecho da ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro, durante uma ressaca no dia 21 de abril, teve a pior das consequências possíveis: duas pessoas morreram enquanto utilizavam a pista. A obra havia sido inaugurada apenas três meses antes. Entre as causas apontadas para o acidente está uma falha de projeto estrutural, que não teria levado em conta o impacto das ondas do mar na plataforma durante uma ressaca. Uma pergunta tornou- se inevitável: cuidados simples não poderiam evitar tragédias como essa? Um dos recursos à disposição de escritórios e construtoras é a Avaliação Técnica de Projeto (ATP), em que um profissional verificador avalia os critérios, cálculos e desenhos utilizados pelo projetista de estruturas. A finalidade é justamente minimizar a possibilidade de erros e evitar desastres na construção civil, aponta o engenheiro Eduardo Barros Millen, diretor da regional São Paulo da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece). Em sua versão mais recente, de 2014, a NBR 6.118 Projeto de Estruturas de Concreto - Procedimento recomenda que a avaliação seja adotada em todas as obras. Millen explica que o ideal é que o verificador seja contratado ainda no início do projeto. "É sempre mais recomendável trabalhar junto com o projetista", diz o engenheiro. "Com a obra em andamento ou quase pronta, principalmente se ela já apresentou alguma patologia, existe o risco de ser necessário derrubar alguma coisa e refazer, o que é sempre um trauma."

O que é a avaliação de conformidade de projeto e por que ela é importante?

Costumamos chamar de ATP, sigla para Avaliação Técnica de Projeto. A revisão feita é em relação aos projetos de estruturas. A finalidade principal é minimizar os erros de projeto, como quedas de estruturas. A sociedade já entendeu que a ATP é uma necessidade. Temos muitos exemplos de obras que vieram abaixo por falta de qualidade do projeto. Não podemos correr o risco de erros em obras causarem mortes. Em casos tão graves, os danos materiais se tornam secundários. Além disso, notícias sobre desastres desse tipo correm o mundo e geram descrédito.

O que a NBR 6.118 diz a respeito dessa prática?

Na versão de 2003, a norma já mencionava a verificação de projeto, mas para obras de grande porte. Isso levou a interpretações divergentes. O que é uma obra de grande porte? Uma barragem? Uma ponte estaiada? Um edifício de 30 andares ou mais? Com o desabamento de um prédio em construção em Belém [caso ocorrido em 2011], a Abece foi consultada pelo juiz do caso. Ele queria saber se aquela era uma obra de grande porte, pois cada advogado interpretava da maneira que lhe era mais conveniente. Mais tarde, participei da comissão que trabalhou na revisão da norma e discutimos o assunto. Retiramos o termo "obras de grande porte", e a avaliação passou a valer para todas as obras. Hoje, a versão da norma que vale é a de 2014. Nossa visão é de que, independentemente do porte da obra, não podemos correr riscos.

Se você pega o projeto [para revisar] e dá seu aval, você assume a responsabilidade por ele junto com o autor. Se houver algum problema depois, os dois podem ser acionados igualmente

Que critérios o contratante deve utilizar para escolher o avaliador técnico? Quem deve ser esse profissional?

O ideal é que o profissional já tenha um histórico tanto como avaliador quanto como projetista. Ele precisa ter qualificações que sejam pelo menos equivalentes às do projetista, pois é essencial que seja possível um diálogo entre eles. Também é importante que ele tenha uma boa experiência com aquele tipo de obra. Um avaliador que costuma trabalhar com obras industriais, por exemplo, não é a pessoa mais adequada para avaliar uma torre residencial.

Quem contrata normalmente é a construtora? Ou o projetista estrutural já pode vender o projeto dele com uma avaliação embarcada?

O ideal é que a mesma pessoa ou empresa que está contratando o projetista contrate também o avaliador. Estamos falando da construtora, agenciadora ou do proprietário da obra. É importante que o avaliador seja um terceiro. Pode acontecer, também, de uma empresa de pré-fabricados, por exemplo, fazer um projeto internamente e contratar um verificador para avaliá-lo. Quem contratou o projeto foi o cliente da fábrica, mas ela sabe que precisa fazer uma verificação. Mesmo que a empresa tenha um departamento de controle de qualidade interno, a avaliação deve ser sempre feita por alguém de fora.

Como está caminhando a adoção dessa avaliação pelas construtoras? Tem crescido?

Está avançando bastante. Em um primeiro momento, houve uma grande discussão e certa resistência dos próprios projetistas, mas essa barreira já foi vencida. Eles já sabem quais são as vantagens da ATP para quem está construindo. O mesmo vale para os contratantes, que no início questionaram os custos extras disso. Mas o preço, em relação ao valor cobrado por metro quadrado nas vendas, é irrisório. As construtoras já perceberam que o custo, para elas, não é significativo.
O preço da avaliação costuma variar algo em torno de 20% a 30% do valor do projeto, dependendo do processo usado na avaliação. Um fator que pode aumentar esse valor é se o avaliador não tiver acesso ao modelo estrutural - no caso, por exemplo, de projetistas que não queiram fornecer por terem propriedade intelectual sobre o modelo. Nesse caso, o avaliador precisará, antes, criar um modelo por conta dele para realizar seu trabalho.

O preço do trabalho de verificação depende, então, do valor do projeto.

Sim, mas às vezes o verificador não sabe nem quem será o projetista, já que a contratação ainda está em andamento. Nesse caso, avalio da seguinte forma: faço um pré-orçamento para mim, para saber quanto eu cobraria pelo projeto. Então, uso como base para calcular o valor da verificação. A Abece também tem uma tabela com referências de honorários para edificações e casas que pode ser adotada.

Como definir quais projetos exigem uma avaliação mais complexa e quais pedem algo mais simplificado?

Acho que o grau de simplicidade pode ser indicado pela repetitividade das peças: por exemplo, uma residência modulada e um prédio de dez andares "quadradinho", com pilares modulados, vãos pequenos. São construções simples de projetar. Um edifício com mais de 25 andares - em que é preciso considerar efeitos de vento e vibrações - e uma obra com arquitetura curvilínea já poderiam ser considerados mais complexos, obras que requerem uma avaliação mais detalhada. Mesmo uma casa pode ser um projeto complexo: se ela tiver, por exemplo, piscina no pavimento superior e jardins suspensos.

Como seria uma verificação mais simplificada?

Seria verificar apenas os critérios adotados pelo projetista: que tipo de concreto ele adotou, qual a classe de agressividade ambiental, os cobrimentos e carregamentos, se eles estão de acordo com as normas. É uma verificação parcial, que não considero a mais adequada. Na verificação que chamo de completa, checamos tudo: dos critérios adotados até o modelo estrutural, a memória de cálculo e os desenhos. Verificar como a estrutura foi dimensionada, qual programa de computador foi utilizado, se há coerência, se os desenhos atendem ao que está no programa, se as fôrmas estão de acordo com a arquitetura, se não há conflito de armações. Algo que não é comum, mas que pode ser feito também, é verificar a interferência em outros projetos, como o de instalação elétrica, hidráulica, de ar- -condicionado. De forma geral, acho que é importante checar, pelo menos, se os desenhos estão de acordo com a memória de cálculo.

A avaliação de conformidade pode ser feita durante ou em paralelo com a elaboração de projeto ou até mesmo depois da execução da estrutura. O que muda em cada um desses casos? O que é mais recomendável?

É sempre mais recomendável trabalhar junto com o projetista. É importante que ele seja informado que o projeto passará por verificação, pois isso influi no trabalho dele também. Ele deve estar ciente de que um terceiro poderá telefonar para ele para tirar dúvidas sobre o projeto, pedir explicações. O ideal é que o projetista já comece a decidir seus critérios junto com o avaliador. Assim, tudo já sai mais adequado e é possível evitar problemas lá na frente. Com a obra em andamento ou quase pronta, principalmente se ela já apresentou alguma patologia, existe o risco de ser necessário derrubar alguma coisa, refazer, o que é sempre um trauma. Se o avaliador trabalha concomitantemente ao projetista, tudo é mais tranquilo. Os comentários são feitos no desenho, no papel, e é muito mais fácil de mudar do que em uma obra já em andamento.

No caso de verificações de obras já prontas ou em andamento, o serviço costuma ser contratado porque surgiu alguma patologia?

Uma das razões costuma ser essa. Também pode ocorrer por mudança de utilização, como um prédio planejado como residencial e que se tornará comercial. Trabalho atualmente em um estacionamento que deve ser transformado em shopping. A carga que era de 300 kgf/m² passará para 800 kgf/m². Então é necessário fazer uma verificação do projeto e, seguramente, será preciso fazer um reforço de estrutura.

O revisor do projeto tem a mesma responsabilidade técnica do autor?

Sim. Se você pega o projeto e dá seu aval, você assume a responsabilidade por ele junto com o autor. Se houver algum problema depois, os dois podem ser acionados igualmente. Afinal, o trabalho do projetista e o trabalho do avaliador compartilham o mesmo resultado.

Imagino que isso estimule o verificador a ter um alto rigor ao avaliar um projeto.

Sem dúvida. Nós lutamos para que não surjam profissionais "canetinhas", que apenas assinem a verificação, sem nem olhar o projeto. É como fazer o projeto em si: o profissional deve calcular, não pode "chutar" qualquer coisa e mandar fazer.

Do ponto de vista prático, quais são as etapas do processo de avaliação de projeto?

O primeiro procedimento é obter os dados de projeto: processamento, modelo estrutural, memória de cálculo, desenhos. Aí, o profissional faz uma análise e emite o primeiro relatório de avaliação do projeto, que aborda os critérios - quais foram aceitos, quais estão em desacordo com a norma, quais precisam ser detalhados em uma conversa. Depois, os relatórios seguem o cronograma da obra. No caso de uma obra convencional, começamos pela fundação, com uma verificação geral da estrutura de estabilidade e durabilidade. Surge daí o segundo relatório. O terceiro já aborda as cargas na fundação, e assim segue a sequência da obra: pilares, primeiro subsolo, segundo subsolo e assim por diante. Se for uma obra de pré-fabricado, a sequência muda um pouco: você libera primeiro as lajes, porque há um cronograma de fabricação das peças. Enquanto elas são fabricadas, você verifica o restante do projeto. Mas, de forma geral, a sequência natural seria: critérios de projeto, estabilidade e durabilidade, cargas na fundação, fundações, pilares, vigas, lajes e pavimento por pavimento.

Surgem situações de conflito e discordância entre o verificador e o projetista? Como costuma ser essa interação?

É preciso ter em mente duas coisas. Em primeiro lugar, o avaliador deve sempre basear suas observações em normas brasileiras sobre o assunto. Em segundo lugar, ao notar alguma incoerência, a primeira ação dele deve ser entrar em contato com o projetista. Não deve falar com o contratante e dizer "peguei um erro no projeto dele". Isso seria antiético. Ao conversar com o projetista, o verificador poderá ouvir as explicações dele. Das duas, uma: ou o projetista se convence e faz a correção, ou ele ainda sustenta o que fez e justifica para o avaliador. Afinal, a norma não é uma obrigatoriedade técnica. É uma recomendação que tem força de lei, mas que não engessa. Se o projetista tiver como base alguma referência, ensaio ou norma estrangeira, ele pode convencer o verificador.

E se a discordância não se resolver?

Se os profissionais não chegarem a um ponto comum, o verificador deve relatar que não está de acordo com o projeto. Nesse caso, alguém terá que desempatar, a critério do contratante: ou ele assume um dos lados, ou contrata uma consultoria adicional. Mas esses casos são muito raros. Comigo, pelo menos, isso nunca aconteceu. Conheço apenas dois ou três casos, num universo de milhares. De qualquer forma, se o projetista não quiser colaborar, o verificador é obrigado a fazer a avaliação e entregá-la para o contratante.

No caso do desabamento do trecho da ciclovia da avenida Niemeyer, no Rio de Janeiro: é algo que poderia ser evitado com uma revisão adequada?

Sim. Nesse caso, aliás, acho que o mais adequado seria contratar como verificador alguém da própria região, do Rio de Janeiro, alguém que conhecesse aquela área. Isso vale para outros casos: se o projeto é de uma obra no Amazonas, o melhor é encontrar alguém de lá para fazer a verificação. Mas, se você perguntar para qualquer projetista de bom nível do Rio de Janeiro, ele dirá que seria preciso considerar o efeito das ondas no projeto. É uma coisa típica daquela região.

Então, não é algo que possa ser considerado surpreendente do ponto de vista do projeto estrutural?

Não. É uma coisa natural. Não foi nem será a maior onda que já aconteceu ali. É como o efeito do vento: pela norma, precisamos calcular um tempo de recorrência do vento no decorrer de 50 anos. Nesse caso do Rio de Janeiro, existem estudos da maré, de quantos metros essas ondas sobem. E, se você tem o estudo da onda, que bate e sobe, é possível dimensionar o impacto na estrutura. É necessário considerar isso. A norma de pontes e estruturas não fala especificamente sobre isso, mas menciona que as cargas devem ser consideradas de acordo com a região em que é feita a obra. Fala em cargas especiais da natureza, que podem ser maré, neve, chuvas fortes. Então, no caso, acho que houve uma falta de conhecimento do local. De qualquer forma, precisamos tomar muito cuidado ao tratar disso até o laudo ser concluído. Podem ter ocorrido outros problemas além desse.

"Nesse caso (...) [da ciclovia que desabou no] Rio de Janeiro, existem estudos da maré, de quantos metros essas ondas sobem. E, se você tem o estudo da onda, que bate e sobe, é possível dimensionar o impacto na estrutura"

Mas, sem dúvida, agora vale uma avaliação do projeto.

Sem dúvida. A Abece e o Ibracon se ofereceram para tomar parte nas discussões. Houve uma reunião semana passada no Rio de Janeiro, para tratar disso com a prefeitura. Aqui em São Paulo, também tivemos uma reunião com a Secretaria de Infraestrutura Urbana sobre o acidente na ponte Santo Amaro, em que um caminhão bateu e depois pegou fogo. Houve uma discussão se seria melhor demolir o viaduto ou não. Chegamos à conclusão, junto com os outros técnicos, de que seria possível reformar. É o que está sendo feito.

As normas técnicas de projetos de estrutura tratam da ação de ondas de ressaca em obras de pontes e viadutos?

Sim, inclusive para projetar cais em portos. Você deve levar em conta o efeito da maré, de esforços e tudo mais. No Brasil, temos a ponte Rio-Niterói, que atravessa o mar, mas ainda são poucas as obras desse porte no país. Mas, se você consultar a bibliografia internacional, verá que países como a Noruega e a Suécia têm pontes fantásticas, que atravessam mares muito violentos. Então, existem dados que devem ser avaliados e considerados em projetos desse tipo.

Você concorda que é preciso criar normas brasileiras mais detalhadas para estruturas em ambientes marítimos?

Concordo plenamente, pois não temos normas brasileiras específicas. Existe essa recomendação genérica sobre a necessidade de considerar condições locais, mas não há normas, por exemplo, específicas para ancoradouros, píeres, cais. Nesses casos, usamos normas estrangeiras. Pense em um navio ancorando em um cais: é um esforço violento, com o navio sendo jogado para lá e para cá pelo mar. Acho que uma norma brasileira é sempre necessária, pois temos características próprias.

E quanto a flexibilizar critérios de aceitação de concreto com baixa resistência? Existiria espaço para tornar normas brasileiras menos rigorosas - comparando, por exemplo, com os Estados Unidos, onde os padrões são menos rígidos?

Acho que esse é um assunto muito polêmico. Precisamos tomar muito cuidado com isso. Estamos preocupados, sobretudo com a segurança. Então, se você adotar como critério uma norma estrangeira, é preciso cautela. Porque, por um lado, se lá fora eles aceitam uma variação maior do concreto, por outro, eles também trabalham com coeficientes de segurança maiores do que os nossos. Não é apenas trazer a norma para cá. É um ponto polêmico, mas eu não mudaria nossos critérios de segurança das normas porque uma norma estrangeira diz algo diferente. Nossa primeira preocupação é a segurança; depois vêm qualidade, durabilidade e outros critérios.

Fonte Revista Téchne - PINI
http://techne.pini.com.br/engenharia-civil/231/artigo371376-2.aspx

 
 
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